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Mercado de volta

 

Na passada quarta-feira, 23 de Janeiro, Portugal regressou aos mercados primários de dívida de médio e longo prazo. Este era um dos objectivos fundamentais do memorando da ‘troika' e estava previsto apenas para Setembro.

Inicialmente era esperada uma colocação de 2 mil milhões, mas, atendendo à elevada procura, que superou os 12 mil milhões de euros, esse valor foi aumentado para 2,5 mil milhões de euros de obrigações a cinco anos que foi protegida por um sindicato

bancário formado pelo BES, Barclays, Deutsche Bank e Morgan Stanley.

Este regresso acontece dois anos depois da última emissão sindicada a cinco anos, que aconteceu em 7 de Fevereiro de 2011, na era pré-‘troika', no montante de 3,5 mil milhões a uma taxa de 6,4%.

Nesta operação a taxa foi de 4,891% e os investidores estrangeiros absorveram 93% da emissão, sendo que desses 30% eram americanos.

Esta operação revelou-se assim um enorme sucesso e surge em linha com o também regresso aos mercados da Irlanda.

O governo aproveitou uma janela de oportunidade criada pela descida do risco soberano no mercado secundário, os dividendos de um ‘roadshow' realizado nos EUA, o cumprimento do défice acordado para 2012 e as condições mais favoráveis para pagar os empréstimos europeus, Portugal seguiu os passos da Irlanda.

Este pedido de dilacção dos prazos dos empréstimos feitos ao abrigo do acordo com a troika é também uma noticia positiva para a nossa actual situação e, no nosso entender, só peca por tardia.

De facto julgo que se teria evitado uma austeridade tão excessiva como aquela que nos foi, e continua a ser, imposta pelo nosso governo, se tivessem sido negociados prazos mais dilatados para os empréstimos que nos foram feitos, e uma negociação de

taxas de juro mais favoráveis. A conjugação dessas duas situações permitiria aliviar esta carga que nos foi colocada e poderíamos ter feito o nosso caminho duma forma mais macia do que com esta exigência a que nos submeteram.

No entanto também não podemos deixar de reconhecer que é esse rigor que permitiu esta antecipação do regresso aos mercados e com o sucesso de que ele se revestiu.

Fui muito critico da politica imposta, e neste caso esta é mesmo a palavra correcta porque ela enveredou sempre e essencialmente pelo aumento de impostos, pelo ministro Vítor Gaspar, precisamente porque ela se limitava a seguir um caminho de sobrecarga fiscal e acho que esse trabalho pode ser sempre feito por qualquer um que chegue aquele lugar. Aumentar impostos é uma fórmula que depende da emanação dum simples decreto ou duma lei, e foi isso que, em grande medida, este ministro foi

seguindo. Faltava para mim uma outra maneira de abordar o problema que deveria passar, isso sim, por o Estado, como qualquer um de nós, passar a viver só com o que tem. Ou seja se o estado recebe 100 dos nossos impostos no seu conjunto, e que são a quase totalidade da sua receita, não pode depois andar a gastar 115 ou 120 por ano.

Isto é lógico e elementar e é aí que o problema se mantém, e que importa realmente resolver. Porque, como ainda se verifica este ano, não podemos suportar tanto imposto com que nos têm carregado. E que traz para a economia um outro nível de problema que é o facto da diminuição do poder de compra levar a uma consequente diminuição do consumo privado e, com esse decréscimo da procura interna, tenderá a aumentar o desemprego, o que, como sabemos, só onera a despesa do Estado em prestações sociais, além do mais grave que é a situação em que as pessoas ficam sem trabalho e a consequente insegurança e depressão que isso traz a cada um dos que se encontra nessa situação e aos que estão à sua volta. O desemprego é, na minha opinião, a grande praga dos tempos modernos, capaz de minar qualquer ordem social e privada.

Depois porque essa fadiga fiscal, que estamos a atingir ou já atingimos à muito, deixa-nos sem confiança e a pensar para que servirá todo esse esforço. Se já em 2010 nos tinham dito que seria um ano, depois 2011 foi mais um, e com mais carga, 2012 mais do mesmo e, em 2013, essa carga foi novamente brutalmente aumentada, só para utilizar as próprias palavras do ministro Vítor Gaspar.

E é aí que este regresso de Portugal aos mercados, que foi um sucesso, sendo só um pequeno passo pode representar muito no futuro.

Primeiro porque antecipa a confiança que os mercados têm que Portugal merece confiança e vai pagar aquilo que deve, como aliás é nossa obrigação e dever e não podemos fazer outra coisa.

Depois porque volta a haver disponibilidade para nos emprestarem dinheiro, quando dele precisarmos, e a taxas aceitáveis, com isso poderemos voltar a financiar as empresas e os particulares e a economia tenderá, com um caminho difícil e lento, mas tenderá, a recuperar da situação catastrófica em que se encontra actualmente, com centenas de empresas a fecharem as suas portas e o respectivo despedimento dos seus colaboradores. Por tudo isso esta operação, e até pelo sentido de oportunidade que o governo teve, foi um êxito, e, tenho que o reconhecer, o ministro Vítor Gaspar foi o seu principal obreiro. É que, sendo ainda pouco, vemos agora que todo este esforço a que fomos, e estamos, a ser sujeitos pode levar-nos a conseguir alguma coisa de boa e útil para o país.

E isso, sendo só um sinal, não deixa de ser muito positivo para nos ajudar a suportar o caminho ingreme que ainda temos pela frente para sair desta crise.

Também por isso acho que estamos todos de parabéns e continuo a acreditar, agora ainda mais, que vamos ser capazes de reaver o nosso futuro para nós mesmos, sem alguém que nos venha dizer como o devemos fazer, o que, só por si, já foi altamente embaraçoso e vergonhoso para Portugal.

 

Jorge Burgal