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Amanhã logo se vê-Crónica Jorge Burgal

 

Eleições Autárquicas 2013 em Salvaterra

 

 No rescaldo das eleições autárquicas de 2013 em Salvaterra e, como nota, prévia quero cumprimentar todos aqueles, de todas as listas, que, sendo cabeças de lista, ou último da mesma, tiveram a vontade e a disponibilidade para aparecerem como candidatos a estas eleições.

É importante que a nossa democracia seja fomentada e as eleições para as autarquias locais são das mais relevantes nesse aspecto. E isso passa muito pela presença de todas estas pessoas em cada lista a que dão o seu apoio. E todos sabemos, duma forma ou doutra, como é difícil, em alguns casos, chegar a encontrar o número de pessoas suficientes para compor uma lista completa.

Depois uma palavra de apreço para o civismo com que os eleitores, mais uma vez, exerceram o seu direito de voto. A tranquilidade e normalidade foram, como devem ser, apanágio de mais estas eleições.

Mas existem algumas situações que nos devem deixar bastante preocupados e que veremos mais à frente.

Eis alguns factos:

1- O Partido Socialista (PS) obteve uma vitória evidente, tanto pelo número de votos, como pela totalidade dos cargos em disputa: presidência da câmara, assembleia municipal e as quatro assembleias de freguesia – as juntas de freguesia;

2- Estavam inscritos no concelho de Salvaterra 18894 eleitores, tendo votado 8634 (45,70%), significativamente abaixo da metade. Isto significa que 10260 pessoas não foram votar: uma abstenção de 54,30%, mais 9% do que em 2009 (45,25%);

3- De 2009 para 2013, em termos absolutos, menos 1467 eleitores foram votar, sendo que o número de inscritos aumentou em 445, o que perfaz um aumento global da abstenção em 1912 eleitores;

4- Dos que votaram este ano para a câmara municipal, 364 (4,22%) fizeram-no em branco, e 264 votos (3,06%) foram nulos. De notar que os votos brancos para este órgão foram sempre superiores aos da votação para as assembleias de freguesia, onde totalizaram 315;

Em termos de Assembleia Municipal, em relação à Câmara Municipal, o candidato do PS teve menos 37 votos que o do mesmo partido para a Câmara, a candidata do Bloco de Esquerda (BE) teve menos 91 votos que o seu candidato à Câmara Municipal e a do MCI menos 19 votos. Já os candidatos à Assembleia Municipal pela CDU e pelo PSD obtiveram, respectivamente, mais 49 votos, e mais 28 votos, que os seus candidatos à Câmara;

 

8- Nas assembleias de freguesia os movimentos são muito similares:

Aqui com relevância para os movimentos de cidadãos independentes, com destaque para o segundo lugar obtido em Marinhais pelo CIM– Cidadãos Independentes por Marinhais, com 536 votos, menos 318 que os do PS, mas mais 81 do que o BE, que ficou em terceiro, e pelo MCI-Movimento de Cidadãos Independentes, na União de Freguesias de Salvaterra-Foros com 514 votos e um quarto lugar;

9- Outras notas de realce: a Coligação Democrática Unitária (CDU) em segundo lugar na União de Freguesias Glória-Granho e em Muge, depois do PS e antes do BE;

Do exposto ressalta a legitimidade democrática que o PS tem para assumir os cargos para os quais os seus candidatos foram eleitos.

Mas, perante o nível desta abstenção, todos devem reflectir sobre o facto do Presidente de Câmara ter sido eleito com apenas 15% dos votos dos eleitores inscritos, contra 25% em 2009.

Ouviram bem: 15%.

 

Que estas eleições tenham tido duas listas independentes a concorrer: uma para a

Câmara municipal, assembleia municipal e de freguesia e outra somente para uma assembleia de freguesia seria, na minha expectativa, motivo para haver uma maior participação dos eleitores, mas verificou-se uma mera transferência de votos, e, ao invés, uma grande ausência de eleitores. Afinal estas eleições registaram uma muito maior abstenção em relação à quatro anos e tornaram-se muito menos apelativas para os eleitores do que aquelas. Talvez por isso mesmo se tornaram disputadas em termos de resultados. E basta olhar para a cerca de dúzia de votos que permitiram a entrada dum terceiro elemento socialista para a câmara, em detrimento da candidatura do MCI, para percebermos a volatilidade destes resultados. E isto é tanto mais relevante quando se percebe o trabalho laborioso que o PS procurou fazer com entrega e dedicação na procura desta vitória, e que ela fosse retumbante. Foram jantares, muita azáfama de rua, sessões de esclarecimento e até a visita do líder do partido, e com certeza outras iniciativas que desconheço, mas que se saldaram, no final e afinal, por uma votação inferior à registada à quatro anos.

Ou seja com todo esse labor não foi possível, sequer, captar o eleitorado de 2009. E isso dá que pensar.

E refiro o PS só para me reportar aos vencedores, que os outros partidos tentaram fazer o mesmo, como sempre fazem. E aí basta voltar a 2009 para se perceber a diferença de capacidade de mobilização que os então vencedores tiveram para com os que agora ganharam, nomeadamente, que é o que aqui quero realçar, na luta contra a abstenção. Esta foi em Salvaterra quase 7 pontos acima da abstenção a nível nacional e 8 pontos acima da verificada no distrito de Santarém.

Se o PS foi o vencedor parece-me óbvio que o grande derrotado foi o BE. Das razões mais concretas para este resultado o partido sobre elas reflectiu ou reflectirá, mas, numa análise geral, não posso deixar de notar que, ao longo dos últimos quatro anos, houve, na Câmara Municipal uma manifesta falta de liderança e de rumo. Não houve nem visão, nem sequer estratégia.

E penso que com a apresentação dum candidato que foi escolhido, preterindo-se outros com mais peso político, com muito mais experiência autárquica, com conhecimento dos meandros da autarquia e com muito melhor conhecimento das pessoas, o resultado do BE não é inesperado.

Ao eleitorado não terá passado despercebido que, depois da demissão, em Julho de 2011, do então Vice-Presidente César Peixe, Salvaterra passou a ter, em termos políticos, um número dois

– o novo Vice-Presidente - que era o número cinco da lista de candidatos. E esse facto trespassou para o acto eleitoral, e os eleitores com a inteligência e soberania que se lhes reconhece, pelo menos eu reconheço, não o deixaram passar em branco.

A incógnita é o que aí vem:

- se será possível ao PS governar sem fazer uma coligação;

- se fazendo uma coligação terá que dar uma vereação á força com quem a fizer, por exigência desta para ter cabal conhecimento do que se passa na câmara;

- se a fizer com quem a fará;

- e se na assembleia vamos ter como Presidente não o que foi eleito, como aconteceu à quatro anos, mas a coligação de todos os outros liderado pelo segundo partido mais votado.

Esta possibilidade de coligações negativas, que podem igualmente acontecer nas Assembleias/Juntas de Freguesia, são, no meu entender, de evitar a todo o custo. A legitimidade do governo é de quem ganhou e caso os eleitores tenham decidido não dar a maioria a essa força, como foi o caso em todos os lugares em disputa, é sua incumbência encontrar a forma de tornar governável o seu posto. Essa é a sua obrigação para com o eleitorado. Os que perderam devem aceitar essa legitimidade porque ela foi conferida aos vencedores, sem, obviamente colocarem em causa o seu direito de oposição que deve ser, também ele, manifestamente respeitado.

Aos que agora venceram penso que devem ter em atenção o que se passou à dezasseis anos atrás e o marasmo e nebulosidade que assaltaram a Câmara de Salvaterra e que levou a uma mudança, nessa altura, bem mais radical do que aquela que agora se verificou.

De qualquer forma merecem os nossos desejos que tenham as maiores felicidades. Estas eleições são também a constatação do fim dum ciclo político em Salvaterra de Magos.