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Mamma Mia

 

 

Crónica de Jorge Burgal - Mamma Mia


Os resultados das eleições do passado Domingo e Segunda-feira em Itália, que se vieram a revelar altamente inconclusivos pela impossibilidade de gerarem uma maioria clara e capaz de governar sem coligações, colocaram os tecnocratas europeus com os cabelos em pé, perante a possibilidade da crise do euro ter um recrudescimento devido a essa situação.


O primeiro facto a confirmar esses receios veio dos mercados, com a generalidade das bolsas europeia a registarem perdas significativas, e pela valorização imediata do dólar frente ao euro, num sinal de falta de confiança na moeda europeia.

A Itália é um dos países fundadores da União Europeia (UE) e é, ao mesmo tempo ,uma das suas maiores economias, mas é também a que detém uma das maiores dívidas públicas e que se torna, assim, também numa das maiores ameaças para a estabilidade do euro.
Historicamente as eleições em Itália têm dado resultados dispersos entre as principais forças em conflito e, algumas vezes, com um ou outro actor externo inesperado, basta lembrarmo-nos do caso da actriz porno Cicciolina, eleita em 1987.

Este ano essa cartada foi jogada por um comediante, o líder do "Movimento das 5 Estrelas", o humorista Beppe Grillo. Aliás ele viria a ser a grande surpresa da noite eleitoral ao posicionar-se em terceiro lugar na contagem final dos votos.

O quadro de resultados apresenta uma dispersão significativa e uma proximidade entre esquerda e direita que não deixa antever uma saída governamental fácil.
As quatro principais forças no parlamento são a coligação de centro-esquerda, de Pier Luigi Bersani, a de centro-direita de Silvio Berlusconi, o referido Movimento das 5 Estrelas, liderado pelo humorista Beppe Grillo, e a coligação centrista do actual
primeiro-ministro Mario Monti.


Em termos percentuais, e de lugares, os resultados foram os seguintes para cada uma das Câmaras:
- Senado (Câmara Alta), 315 lugares no total:
- Bersani: 31,63% (123 lugares),
- Berlusconi: 30,72% (117 lugares)
- Grillo: 23,79% (54 lugares)
- Monti: 9,13% (19 lugares)
Os dois senadores restantes - um da região do Vale de Aosta e outro resultante do voto no estrangeiro - não pertencem a nenhuma das duas principais formações.
- Câmara dos Deputados (Câmara Baixa), 630 lugares no total:
- Bersani: 29,54% (345 lugares),
- Berlusconi: 29,18% (125 lugares)
- Grillo: 25,55% (109 lugares)
- Monti: 10,56% (47 lugares)
Os quatro deputados restantes pertencem a movimentos de imigrantes italianos e um do Vale de Aosta.

 Depois do que se havia passado na Grécia, onde também umas primeiras eleições foram inconclusivas, bem como todas as tentativas para formar um governo a partir delas, e teve que haver um segundo acto eleitoral para o conseguir, as estruturas europeias ficaram agora seriamente abaladas com essa mesma possibilidade, para mais num país da dimensão e peso económico da Itália.


E têm boas razões para estarem preocupados. Mas, mais que isso, a Europa, esta Europa de hoje, que age mais como um banco de crédito do que como uma família de amparo e de apoio, devia meditar como Mario Monti, o seu muito apreciado, admirado, apontado como bom exemplo (não, não somos só nós portugueses, isto serve sempre que convém), em termos da aplicação de medidas para redução do défice, se limitou a obter cerca de dez por cento dos votos dos seus concidadãos italianos que estão a sofrer na pele o resultado daquelas medidas
tão queridas a Bruxelas e ao eixo germânico da UE.


E isso leva-nos à questão da legitimidade que existe, ou não, por parte duma instituição macrocéfala, como é a Comissão Europeia, para impor medidas a países inteiros sem que elas sejam escrutinadas pelo voto das pessoas que a ela vão estar
sujeitas.


Esta falta dos cidadãos se poderem pronunciar sobre as acções extremas em termos de austeridade e cortes sociais tem vindo a provocar elevados sentimentos de repulsa e revolta relativamente às instituições europeias, que as têm imposto de forma desmesurada e sem olhar às tragédias sociais que elas têm provocado.
É que se por um lado é certo que não se pode, nem se deve, viver acima das possibilidades, e se tem que pagar o que se deve, por outro não parece compreensível que com isso, e no mesmo espaço económico que devia ser de equidade e solidariedade, outros lucrem bastante com a miséria que é imposta àqueles.


Esta falta de escolha pelos cidadãos, sobre a forma como os incumprimentos que lhes foram causados pelos seus governos devem ser resolvidos, poderá levar cada vez mais a situações extremas que tenderão a destabilizar a ordem social europeia instituída, para além de deixar em cada um sérias dúvidas sobre o valor intrínseco do conceito de projecto europeu e, consequentemente, de cidadão europeu.


No fundo a questão se vale a pena fazer parte da Europa, como instituição, como espaço comum de relações entre países, que deviam ser iguais, e como possibilidade de todos terem uma vida melhor em paz, mas também em termos económicos e financeiros.
Os resultados agora obtidos na Itália são uma, mais uma, clara demonstração de que as instituições europeias andam divorciadas da livre escolha dos cidadãos e que com isso estão cada vez mais a delapidar o seu potencial de confiança e crédito junto das
pessoas de cada um dos países da UE.


Importa por isso tomarem consciência de que devem mudar os procedimentos das acções que levam a cabo tendo em vista essas mesmas pessoas e não agirem ao arrepio daquilo que são as suas legítimas aspirações, que, note-se, lhes foram prometidas.
Um primeiro passo deveria passar pela democratização das instituições europeias fazendo-as passar a ser sufragadas pelo povo.
Se assim não for, breve poderá ser o dia em que essas instituições andem num "mamma mia" a pensar como lhes aconteceu a desgraça que, ainda recentemente, haviam provocado a vários países europeus.


Jorge Burgal