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Chave válida?

 

Na terça-feira, dia 5 de Março, faleceu o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aos 58 anos, vítima de cancro. Figura altamente controversa, deixa tantos apreciadores como detractores, mas duma coisa existe a certeza: ninguém lhe ficou indiferente. Tendo ganho as eleições presidenciais de 6 de Dezembro de 1998, com 56% dos votos, onde foi apoiado pela esquerda e centro esquerda, ascendeu ao poder em 1999 e, com isso, acabou com quatro décadas de poder dos partidos tradicionais.


A Venezuela - que é um dos maiores produtores mundiais de petróleo e o que tem as maiores reservas registadas - encontrava-se nessa altura, precisamente devido aos preços do petróleo em queda, numa profunda crise económica e social.
Aproveitando a subida de preços do crude (o preço foi multiplicado por dez numa década) investiu biliões de petrodólares em acções de apoio aos mais carenciados, que denominou de "missões sociais".


Nesse tempo vendia petróleo aos países da América latina - os que não podem pagar cem dólares por barril - a um preço pouco mais que simbólico e em troca de bens ou serviços:
- médicos com Cuba, tractores, maquinaria e software da Argentina e Uruguai e até "vacas prenhas que produzem muito leite" - como as definiu Chávez, no seu estilo peculiar, durante a 17ª Cimeira Ibero-Americana, em 2007, no Chile -, passando por
assistência social da Nicarágua e, talvez o aspecto mais significativo, financiamentos massivos da China, interessada em garantir o seu abastecimento de energia.
Daqui se infere que o percurso de Hugo Chávez está intimamente ligado à exploração do petróleo, que acompanhou a sua ascensão política e que foi a sua principal arma, nacionalizando os activos de empresas estrangeiras e impondo o controlo da companhia pública, PDVSA, sobre todos os projectos de petróleo e gás no país. Actualmente as receitas de crude representam cerca de 90% dos recursos em moeda estrangeira do país, e, desses, a Venezuela, apesar dos diferendos políticos, exporta 36% da sua produção de petróleo para os Estados Unidos. Em 2012 foi um dos seus principais fornecedores, atrás do Canadá, Arábia Saudita e México, cobrindo perto de 10% das importações americanas.


Com estas receitas Chávez procurou dar às classes venezuelanas mais desfavorecidas melhores condições sócio económicas tais como: protecção social, acesso grátis à educação, erradicou o analfabetismo, tirou 58% da população da miséria absoluta e garantiu a essas pessoas acesso a direitos humanos básicos, como a saúde e a habitação, até então negligenciados.


Pelo caminho, e especialmente depois dum golpe intentado contra si em 2002, empreendeu uma declarada luta contra os Estados Unidos - contra o imperialismo americano, como o próprio dizia - e contra as políticas liberais. Ao mesmo tempo começou a deixar para trás princípios básicos da democracia -mudou mesmo a constituição para permitir a sua eleição indefinidamente, o que a natureza veio agora contrariar - acabou com televisões e rádios afectas à oposição venezuelana, ou que não eram simplesmente da sua ideologia, tomou conta de todos os cargos do estado, não só os políticos como os judiciais, e enveredou por uma postura populista e demagógica.


Entretanto Chávez via emergir na América Latina líderes esquerdistas que o tirariam de seu relativo isolamento ideológico local e lhe permitiriam vislumbrar a aplicação prática de seu plano de internacionalização da revolução bolivariana.


Com isso obteve apoios para a oposição da América do Sul ao chamado "imperalismo yankee" - como dizia Chávez - e que teve o seu ápice na última Cimeira das Américas, quando todos os membros condicionaram sua participação à aceitação da
legitimidade de Cuba, e da qual os Estados Unidos saíram de mãos a abanar.
Aliás só agora o presidente Obama tem mostrado alguma abertura para respeitar as novas lideranças sul americanas e,teimosamente, mantém o bloqueio a Cuba que faz com que o povo permaneça pobre e sem a maior parte dos bens necessários. Para mim uma atitude incompreensível e que já não tem qualquer fundamento, para mais depois da extinção da antiga União Soviética. A maior desilusão dos mandatos de Obama.


De Hugo Chávez deve reter-se a determinação do seu espirito de solidariedade e fraternidade (veja-se mesmo o apoio que deu a Portugal) no sentido de combater os excessos do capitalismo e de estabelecer relações económicas fortes entre países e estados vítimas desse capitalismo selvagem e de políticas liberais extremas.
Nesse ponto esteve sempre muito à frente e, tem que se lhe fazer justiça, foi dos poucos dirigentes que se opôs a essas políticas que, até mesmo na Europa, têm derrubado e vergado países completos. Esta visão, duma economia feita de transacções justas entre países acossados pelo sistema capitalista, pode parecer romântica.


Mas certo é que, fruto da sua determinação e do seu desinteresse em lucrar nos negócios com esses países, criou uma verdadeira possibilidade deles se tornarem não dependentes dos países mais poderosos.
Esta pode ser uma chave para uma nova ordem económica que se oponha à do capitalismo selvagem. Vamos ver se tem continuadores, e se se mostra válida.


Jorge Burgal