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Habemus Papam?

 

O Papa Bento XVI anunciou oficialmente, no passado dia 11 de Fevereiro, que vai
renunciar, no próximo dia 28, ao pontificado devido "à idade avançada". Tal
comunicação foi proferida durante o Consistório sobre datas de canonizações em que
anunciou a sua resignação.


Esta notícia apanhou meio mundo, e o outro, claramente de surpresa. Não existe
memória recente de tal ter acontecido (o último caso de renúncia papal terá ocorrido
para lá de 700 anos) e, habituados como estávamos a ver alguns papas a arrastarem-se
no desempenho da sua missão, foi, pelo menos para mim, uma verdadeira lufada de ar
fresco e de lucidez uma decisão com tamanho impacto.
Não importa aqui se se é, ou não, religioso. Aquilo que pode ficar como exemplo
dado por este homem é o seu desprendimento, desinteresse e amor pela sua causa
maior. Ser papa, penso que ninguém o duvida, é aceder a um dos lugares mais
poderosos do planeta. Deixar de o ser de forma livre, voluntária e decidida só pode
deixar antever uma inteligência superior e um afastamento dessa sede de poder que
merece ser enaltecida e valorizada.


Isto é tanto mais significativo porque, não sendo religioso, sempre tive algumas
reticências relativamente às posições tomadas pela igreja no ministério de Bento XVI,
aliás na senda das posições dos seus antecessores. Mas onde via em João Paulo II um
Papa popular, porque próximo das pessoas, e que por isso merecia simpatias fáceis,
notava neste Papa um distanciamento nessas situações. Teologicamente muitos lhe
reconheceram enorme capacidade, mas como disse acima, tenho mantido sérias
reticências em verificar posições oficiais da igreja que, no meu modesto entender,
estão longe de acompanhar os tempos e são, por isso mesmo, condenáveis:
- teimosia em continuar a condenar o uso do preservativo, mesmo em ambientes de
elevada propagação de doenças venéreas e sexualmente transmissíveis - como sucede
em todo o mundo, mas com especial incidência em África;
- não abertura do exercício clerical às mulheres no campo da celebração;
- negação da discussão da possibilidade do casamento dos padres;
- a condenação da homossexualidade;
- a manutenção dum certo "status" de opulência em contraste com a defendida e
proclamada vivência dos valores espirituais sobre os materiais;
- os sintomáticos escândalos de pedofilia que grassam na instituição por todo o
mundo, e o nosso país não é excepção, e que eram mais ou menos esquecidos, mas
que mereceram, diga-se em abono da verdade, uma condenação clara e veemente por
parte de Bento XVI.


De tudo isto ressalta uma entidade que se encontra algo desajustada da realidade
actual e que vive sobre pergaminhos e modelos que não se coadunam com as próprias
vivências, e talvez exigências de liderança, dos seus fiéis.
Ou seja se por um lado a igreja católica apostólica se pode apresentar como um pilar
de valores tradicionais, sendo portanto uma referência, por outro ela fica a dever
bastante ao acompanhamento das novas evoluções sociais e isso, devido ao seu
imobilismo em entender essas mudanças, poderá levar ao afastamento dos seus
acólitos por não acharem que estão a ser acompanhados numa altura de alterações
permanentes e, muitas vezes, radicais.


Ora nada nos garante que da reunião do novo conclave, que irá eleger o novo Papa,
resulte algo de diferente na actuação da igreja. O imobilismo a que temos assistido é
peça fundamental do funcionamento da própria organização e, provavelmente, da sua
resistência às ameaças externas com que se tem deparado.


O único facto novo que esta resignação de Joseph Ratzinger trouxe foi a de que, pela
primeira vez na actualidade, não assistimos ao arrastar público, em termos de
presença física, de um homem no final do seu mandato.
Basta pensarmos no que tinha acontecido com o seu antecessor, João Paulo II, para
darmos mais significado a este gesto de Bento XVI. Relembre-se que ele foi eleito
Papa a 19 de Abril de 2005, após a morte de Karol Wojtyła e que cumprirá, assim oito
anos de magistério. Com esta resignação teve ainda lucidez para fazer com que
aquando da celebração pascal, um dos períodos mais importantes do calendário
católico, já possa estar devidamente substituído.


É por isso que este acto além do desprendimento acima referido, foi também um acto
de coragem, numa dimensão humana invulgar não só na igreja, mas em qualquer dos
grandes palcos do poder mundial.
Por isso mesmo não tenho dúvidas em afirmar que esta acção marcará de forma
inequívoca o seu papado e deixará uma marca indelével no futuro da instituição como
exemplo da capacidade de abandonar o cargo em vida. Tivemos Papa!

Jorge Burgal