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Um Partido (in)seguro

 

Assistimos, esta semana, a mais uma cena palaciana típica da política, e dos políticos, portugueses. Normalmente estas atitudes estavam reservadas, ou eram mais notórias, nos partidos políticos da área do poder virados à direita: o CDS/PP e, ainda com mais notoriedade no PSD.

 

A surpresa agora foi a de que também o PS se viu envolvido nestas jogadas de bastidores com o único objectivo de garantir o chamado “lugar no poleiro” quando ele for atingido. Como isso se torna cada vez mais possível, a luta de corredores tomou claramente conta da vida politica interna e assomou-se até à opinião pública. O modo

como isso foi feito é que me pareceu muito pouco digno para os principais intervenientes, e para o conjunto do partido socialista, que sai mais enfraquecido em termos da ideia de unidade que vinha dando e que era o principal aspecto para garantir uma estabilidade e uma liderança eficazes.

 

Esta liderança de António José Seguro (AJS), que muitos afirmaram logo que seria aprazo, ou transitória, vinha, embora sinuosa, e mesmo com alguns tiros nos pés, mas paulatinamente, a tirar partido do descontentamento generalizado que o povo português sente perante a violenta política de austeridade que a maioria PSD-CDS\PP nos tem imposto. Fazendo um discurso de não promessas declaradas, mas sendo contra este volume de austeridade, ganhou alguma simpatia por parte do eleitorado que se tem vindo a verificar em diversas sondagens. Isto embora também nunca tenha esclarecido cabalmente onde iria cortar na despesa para fazer face à diminuição de receita que se tem vindo a acontecer.

 

Ou seja o PS parecia ter encontrado um rumo não brilhante, mas pelo menos esforçado e direccionado, para poder chegar ao governo. Eis que senão quando, vendo essa perspectiva em aberto, alguns iluminados, talvez com medo de ficarem de fora, vieram colocar tudo em causa, especialmente a liderança, exigindo explicações sobre prazos de marcação de congressos e actos eleitorais internos.

 

Ou seja quando se avizinha a possibilidade de se alcandorarem ao poder tudo fazem para o tomar, enfraquecendo a sua liderança actual e, com isso, o seu próprio partido. E talvez muitos, digo eu, só a ele devem a subsistência. Não se discute aqui a

legitimidade de quem faz isto. Primeiro porque ela deriva logo, e está mesmo inerente, ao próprio conceito de democracia, e depois porque também é legítima, embora muito menos altruísta, a defesa dos interesses pessoais. Mas é preciso pouco descaramento e espirito de camaradagem para derreter, em tão pouco tempo, o

trabalho que vinha sendo construído pela liderança socialista de António José Seguro.

 

Que essas acções tenham sido feitas para lançar a candidatura de António Costa a secretário-geral do PS ainda foi, pelo menos para mim, mais surpreendente. António Costa vinha-se afirmando como um dos valores mais sóbrios e sérios da política portuguesa. Sem grandes alaridos ganhou a Câmara da capital, lançando alianças preciosas em áreas que não eram as suas. Aos poucos foi mudando a face de Lisboa, nem sempre bem na minha opinião, mas, que a mudou isso é indiscutível, dando-lhe mais vivacidade e um sentido ecológico (por vezes até demasiado fundamentalista) que dela andava arredado.

 Ao mesmo tempo foi abrindo caminho para resolver o grave problema financeiro com que a autarquia da capital se deparava.

Pelo meio teve a visão e a capacidade de criar convergências com o PSD, adquirindo assim a legitimidade para fazer uma reforma administrativa em Lisboa que reduz para mais de metade o número de freguesias – passou de 53 para 24 –, tudo com muita tranquilidade e sem protestos de maior. Aliás, conseguindo um amplo apoio por parte da sociedade civil (precisamente o contrário da Lei emanada pelo Governo para o resto do país em termos de reorganização administrativa). Ora, com tudo isto, António Costa granjeou para si um enorme capital politico que lhe valeria ser um elemento charneira na estrutura do PS, até mesmo para uma eventual candidatura à sucessão de Cavaco (basta pensarmos no percurso de Jorge Sampaio). Uma das suas posições mais notadas foi a de, quando o PS discutia a sucessão de José Sócrates, há cerca de ano e meio, ter afirmado: “Não é possível acumular a liderança do PS e a presidência da Câmara Municipal de Lisboa. O PS precisa de um secretário geral a tempo inteiro e o município de Lisboa de um presidente com dedicação exclusiva”. Nessa altura adiantou ainda: “Tenho a certeza que os meus camaradas do

PS são os primeiros a compreender que honrar a confiança que em mim depositam os lisboetas, cumprir o compromisso que assumi com a cidade que me elegeu, exercer com total paixão as funções públicas que me estão confiadas, é não só meu dever, como o melhor contributo que posso dar para credibilizar a política e prestigiar o próprio Partido Socialista”.

Que agora se tenha deixado envolver em jogos palacianos despoletados por meros peões dum outro reinado anterior, só movidos pelo interesse de poder imediato, foi uma grande surpresa e que, apesar do aparente recuo que teve, não deixará de marcar,

muito negativamente, a sua imagem.

É que esta é a forma usual como vemos os políticos portugueses: grupos de interesse de ataque ao poder, exclusivamente param seus benefícios próprios. Permitindo uma colagem tão significativa como a que aconteceu em meados desta semana, o autarca

de Lisboa ficará indubitavelmente associado a este tipo de prática e essa será uma marca de que dificilmente se conseguirá desviar a partir de agora.

 

A António José Seguro cabe, no imediato, a capacidade de mostrar que o seu partido, apesar desta situação e consigo a timoneiro, consegue navegar unido na procura de soluções para o país, e não somente para algumas facções que dentro dele se movimentam.

A não ser assim o PS arrisca-se a entrar em areias movediças, e, como se sabe, esses são terrenos muito inseguros…

 

 

Jorge Burgal